"Escutai-me, levitas! Santificai-vos agora, santificai o templo do Senhor, Deus de nossos pais, e purificai-o de tudo o que o mancha, porque nossos pais prevaricaram, fizeram o mal aos olhos do Senhor, nosso Deus; abandonaram-no, desviaram seus olhos de sua morada, voltaram-lhe as costas; cerraram as portas do pórtico, extinguiram as lâmpadas, não mais queimaram incenso, suprimiram os holocaustos no santuário do Deus de Israel." II Crônicas 29, 5-7.
Muito provavelmente, nunca se tenha ouvido tanto falar em abusos litúrgicos, padres impiedosos e falta de
sacralidade no culto católico. De fato, contemplamos nos nossos dias uma crise tamanha, sem precedentes na história da Igreja. Tudo aquilo que nos remete ao sagrado, e assim, ao divino, foi descartado, escondido e destruído. Na melhor das hipóteses, o sagrado foi jogado sujo e amassado nos velhos armários de sacristia. Afirmo isso com os olhos de um
coroinha que observou atentamente os acontecimentos modernos. Nos séculos passados, não era
incomum que um ladrão desalmado roubasse os tesouros de uma igreja. Pobres ladrões de hoje! Não encontrariam mais nada o que levar, pois todos nós fomos roubados enquanto dormíamos.
Não é difícil imaginar o que pensam os padres de hoje, esses padres sem batina que estamos acostumados a ver e ouvir: "O povo fiel não pode correr o risco de reavivar as antigas memórias, aquelas que lhe foram lavadas com tanta dedicação. Tente imaginar tais riscos, caro leitor: mesmo um pequeno crucifixo, disposto sobre a "mesa da comunhão", poderia ter o poder de destruir todo um conceito de "celebração da partilha", de "encontro entre irmãos", tão caro aos nossos bispos dessa Terra de Excluídos, trazendo de volta
idéias já ultrapassadas como a noção de sacrifício
propiciatório. Além disso, quão inoportuno seria esse
objeto, pois atrapalharia as tomadas para a TV, bem como a visão da
Assembléia, da qual o sacerdote é apenas "presidente", conforme vasta fundamentação nos documentos que constituem a base da vida litúrgica brasileira (
CONOSCO, Deus. 2009, p. 01; DOMINGO, O. 2007, p.02
et seq.)"
Tudo isso sabemos bem, e bem sofremos há tanto tempo. Entretanto, diante de toda a tempestade que se apresenta diante de nós, uma coisa sempre me chamou a atenção. Uma mudança
sutil nos altares, uma coisa aparentemente pequena, mas capaz de trazer
consequências terríveis para a fé católica: o desaparecimento das velas nas igrejas brasileiras.
Mas qual é a importância disso? O que é que muda se há ou não há velas, em tempos de luz
elétrica? Estudemos o tema.
Segundo o Catecismo da Santa Missa,
"S. Lucas, nos Atos dos Apóstolos, 20, 7- 8, nos revela que, no local onde S. Paulo pronunciou um extenso discurso aos fiéis no primeiro dia da semana (domingo) havia uma grande quantidade de luminárias. Aí lemos: 'E, no primeiro dia da semana, tendo-nos reunido para a fração do pão, Paulo, que devia partir no dia seguinte, falava com eles, e prolongou o discurso até a meia-noite. E havia muitas lâmpadas no Cenáculo, onde estávamos reunidos'. Além disso, Eusébio nos diz que, na noite de Páscoa, além da iluminação das igrejas, o imperador Constantino ordenava acender todo o tipo de tochas em todas as ruas da cidade, para que aquela noite fosse mais brilhante que o dia mais claro (Euséb., História Ecles., 1. 5, c. 7).Assim, o costume das luzes durante a celebração da Missa é uma lembrança da mais remota Antiguidade, e como manifestação da alegria espiritual dos fiéis naquele santo momento."
E ainda:
"Nós não acendemos luzes durante o dia senão para mesclar de alguma alegria as trevas da noite; para velar com a luz, e evitar dormirmos como vós, na cegueira das trevas" (S. Jerônimo, Epist. ad Vigilant )." (...)nós nunca celebramos a missa sem luz, não para dissipar o escuro, visto que é dia, mas para figurar e anunciar a luz eterna e divina cujos sacramentos e gloriosos mistérios celebramos."Agora, fica mais fácil entender o sentido desse precioso costume: as velas simbolizam tanto que somos "filhos da luz", como se refere S. Paulo, quanto o
carácter misterioso e sagrado dos ofícios litúrgicos, dedicados ao próprio Deus. No Apocalipse, o Filho do Homem aparece entre sete candelabros de ouro. Em Números, Deus ordena que se construa para o Templo sete candelabros de ouro. Assim, é do agrado de Deus que o sumo sacrifício de seu Filho seja honrado com candelabros.
Entretanto, não é isso que se vê em nossas paróquias e mesmo catedrais. Em muitos lugares foram retiradas as velas de cima do altar, colocando-as literalmente "de lado". Em outros, a única vela é o Círio Pascal, que queima durante todo o ano, sem obedecer ao tempo litúrgico. Em alguns, não há qualquer indício de vela de altar. Senão vejamos:
Velas colocadas ao lado do altar, num arranjo sem sentido.
Altar da Confissão, Basílica de S. Pedro
Rezemos, para que os sacerdotes compreendam que nada do que a Liturgia da Igreja nos oferece é dispensável, pois é a obra prima do Espírito de Deus, agindo através dos séculos.